Linux de 20 anos

linux20_capa

Para encerrar o mês, algo que é pura “nostalgia autobiográfica”, uma espécie de comemoração, em 2015, dos meus vinte anos utilizando GNU/Linux (nestas ocasiões usamos seu nome completo) instalando as três distribuições da minha edição de novembro de 1995 da LINUX Develper’s Resource da InfoMagic para matar a saudade.

Aliás, isto aqui deveria ser publicado no Retrocomputaria Plus mas como costumamos dizer, “está fora do ponto de corte” 🙂

LINUX Developer’s Resource

A InfoMagic era uma empresa que produzia e comercializava coletâneas de software e/ou documentação em CD-ROM para gente sem tempo, paciência ou conexão suficientes para fazer por conta própria. Uma destas coletâneas é a LINUX Develper’s Resource cuja versão de novembro de 1995 consistia de um conjunto de 5 CD contendo:

  • Três distribuições completas (Slackware, Red Hat e Debian);
  • Extensões (JE) e FAQ (JF) do Linux para o idioma japonês;
  • Código fonte de todas as versões do kernel — até 1.2.13 e 1.3.42);
  • XFree86 versão 3.1.2;
  • Espelho dos repositórios do tsx-11.mit.edu, sunsite.unc.edu e prep.ai.mit.edu (projeto GNU);
  • Documentação, incluindo todos os HOWTO e
  • Versões de demonstração de programas comerciais.

Por todo este conteúdo valia a pena pagar ao invés de tentar baixar tudo via conexão discada. 🙂

O hardware de 1995

Pensei originalmente em usar o Bochs ou então o QEMU, mas no final optei pelo VirtualBox (pura comodidade), e construí três máquinas virtuais com a aparência mais próxima de um computador do meio da década de 1990. Ou seja, um único processador (óbvio!), 32MiB de RAM, disco rígido IDE de 2GiB, adaptador de rede DEC PCnet, Sound Blaster 16 (apenas caso resolvesse tocar algo), mouse PS/2 e nada de USB.

Slackware Linux 2.2.0.1

linux20_slackware-1

Infelizmente perdi o CD da Infomagic com a versão 3.0 da Slackware, daí resolvi usar um outro CD, o da versão 2.2.0.1 que viera encartado no livro The Complete LINUX Kit da SYBEX que é de junho de 1995, potanto ainda dentro da contemporaneidade.

Este livro é a uma compilação contendo o Getting Going with Slackware Linux do Daniel A. Tauber, também autor da compilação, e o Linux Installation and Getting Started (conhecido por aqui como “Dominando o Linux”) de Matt Welsh.

Claro que para minha grata surpresa o CD não é bootável — aliás, nenhum deles é e, se não estou enganado, este conceito ainda não existia nos PC! — ou seja, precisei me virar com imagens dos disquetes de instalação com os “discos” de boot (contendo a versão 1.2.3 do Linux) e de root (contendo a ramdisk básica e seu instalador).

Daí foi iniciar a máquina virtual, “trocar” os disquetes na hora correta e logar como ‘root’ (por padrão, sem senha). E já que o instalador do Slackware não considera o particionamento dos discos como “instalação”, fazer uma escala no fdisk antes de reencontrar o bom e velho instalador, o setup.

linux20_slackware-2

Então fiz uma escolha sem lá muito critério dos DISK SETS e segui com a instalação.

Eles, os DISK SETS, são uma espécie de categoria de pacotes mas seu nome curioso remonta à época em que esta organização era feita para que fossem gravados em disquetes. Justamente, as distribuições de Linux foram criadas originalmente, assim como todo software da época, para serem acondicionadas em disquetes.

Se fosse o caso, esta versão poderia ser colocada em 80 discos de 3,5″ de 1.44MiB — isto é, se você tivesse disposição para  gravá-los! 😀

A instalação terminou sem problemas, exceto um pequenino detalhe. Após configurada a rede não estava funcionando.

linux20_slackware-3

A interface de rede estava de pé, mas seu endereço IP mas “não pingava” e, como o problema pareceu muito familiar para ser simples coincidência, resolvi reiniciar e… funcionou normalmente! E agora não mais acredito que este bug era exclusividade do driver das placas da 3COM.

Ao menos achava que tinha sido o único problema até me dar conta de que o suporte ao CD-ROM (padrão IDE, algo tão normal hoje em dia mas não na época) não estava incluído no kernel!

Ah sim, com relação ao X/Window,  já estava desencanado antes mesmo de começar e nem o considerava como “problema”.

Red Hat Linux 2.1

linux_20_redhat-1

Aqui é a versão 2.1 da Red Hat e não a RHEL 2.1 de 2002, há sete anos de distância entre eles. Simplificando um pouco, já que também não daria boot pelo CD, separarei as imagens de disquete com as duas partes do root, a ramdisk.

Para minha surpresa eu tinha 72 opções de discos de boot, começando com o “boot0000.img” e terminando no “boot0071.img”. Perdido por lá, felizmente, um arquivo chamado “image.txt” que explicava a função de cada um deles, eu só precisava do “boot0000.img”.

linux_20_redhat-2

Um detalhe que pouca gente parece saber (ou recordar) é que antes do Anaconda existiu um outro com opção gráfica na Red Hat.

linux_20_redhat-3

Nesta época em que a configuração do X/Window não era simples — algo que só veio efetivamente a melhorar a partir da versão 4 do XFree86 lá pelo começo de 2000 — e devia servir mais para dificultar do que para ajudar. Tanto que, se não estou enganado, já na versão 3 da Red Hat o instalador gráfico foi removido e ninguém sentiu falta dele.

E assim como a Slackware, na Red Hat também permita transferir a distribuição para disquetes! Você só precisaria de 91 disquetes de 3,5″ 1.44 MiB para a tarefa.

Percebi durante a instalação mas como não atrapalhou deixei seguir em frente: ele não detectou o adaptador de rede e quando procurarei o motivo a resposta foi óbvia: o kernel não era compilado com o suporte para DEC PCnet! :-/

Debian 0.93 R6

linux_20_debian-1

Um desafio a parte, nunca antes instalara a Debian nesta versão e não fazia a menor ideia de como seria.  Aqui o pessoal da InfoMagic foi condescendente em considerar que 0,93 já já era “quase 1” e a consideram “Debian 1.0”.

Aqui também precisei usar discos de boot e root mas, como o CD não foi corretamente “entendido” precisei recorrer ainda aos três discos de base. Não foi nada relativo ao suporte ao hardware em si, aparentemente a  InfoMagic copiou os arquivos da distribuição em um lugar diferente de onde deveria e o instalador não gostou muito da ideia.

linux_20_debian-2

Por ter usado o base acabei precisando produzir um quarto disquete contendo o disco de boot desta instalação. Pois é, havia me esquecido que nesta época a instalação da Debian ocorria em duas etapas.

Não sei quem foi que primeiro a ter a ideia  mas a instalação em duas etapas também ocorre nos Windows, o instalador copia tudo aquilo que precisará do CD/DVD para o disco local da máquina antes de reiniciar e completar a instalação. O primeiro que me recordo de fazer isto é a versão 3.x do NT.

Ao contrário da Slackware e Red Hat, a Debian não foi feita para ser gravada em disquetes, uma vez que o sistema básico estivesse de pé você configuraria a rede e instalaria o resto a partir do CD ou via FTP, HTTP ou NFS.

Após o segundo boot, a relação com o CD continuou pouco amistosa então copiei logo todos pacotes de uma vez para o disco rígido…

linux_20_debian-3

…daí foi “brigar” um pouco com o dselect — o APT só apareceria em 1998 — e finalizar com sucesso a instalação.

Problemas

Sabia que problemas aconteceriam, até por que eles sempre acontecem. E até que foram bem poucos se considerar estes vinte anos (exemplo, as mídias estarem ainda legíveis).

Recompilando o kernel

Algo que seguiu de forma constante durante todo este tempo foi a ampliação do suporte à miríade de hardware da plataforma x86 e esta, seguindo seu próprio rumo ajudou também ao se tornar mais homogênea. Ou seja, recompilar o kernel tornou-se algo quase desnecessário atualmente (claro, há exceções… sempre haverão!).

Voltando para 1995, como o nosso hardware é suportado mas não foi incluído no kernel padrão que estamos usando a alternativa é recompilá-lo. Algo que, “quando jovens”, fazíamos com dois propósitos:

  1. Remover o suporte ao desnecessário deixando o kernel enxuto e consequentemente liberando memória para as aplicações e
  2. Impressionar os amigos ao divulgar o tempo seu novo computador levava para fazê-lo — valores abaixo de 50 minutos eram sempre impressionantes!

Resumindo:

  • Copiar o arquivo “/boot/config” como “/usr/src/linux/.config” para pegar a configuração atual;
  • Rodar “make config” (“menuconfig” ainda estava para nascer);
  • Verificar as dependências da configuração com “make dep”;
  • Apagar arquivos temporários com “make clean “;
  • Compilar o kernel com”make zImage” torcendo para não ultrapassar 640KiB*
  • Compilar e instalar os módulos com ” make modules && make modules_install”;
  • Substituir o “zImage” pelo “/vmlinuz”;
  • Rodar o LILO para reconfigurar e
  • Reiniciar!

Na Red Hat eu precisava ainda terminar de configurar a interface de rede e, vejam só, tanto o netcfg quanto o Network Manager ainda seriam criadas (ao menos não encontrei nada parecido e acabei fuçando nos scripts em “/etc/sysconfig/network-scripts” para descobrir o fazer).

(*) Lembrando que o LILO usava a BIOS, logo rodava em modo 8086, portanto só enxergava 1MiB de RAM tal qual o primeiro PC da IBM (lançado em 1981) pois, claro, ninguém nunca vai precisar de mais de 640KiB de RAM! 🙂

X/Window

Eu sabia que teria problemas, como o servidor precisa acessar diretamente o hardware da placa de vídeo tentar configurá-lo como uma placa de vídeo que ele não suportaria já seria um problema, fora fazê-lo sem ter a menor ideia de como configurar as frequências do “monitor” da máquina virtual, sem isso o máximo que eu consegui foi entrar no modo de 320×204 com 256 cores usando o servidor SVGA.

Caldera OpenLinux Lite 1.2 (1998)

Mas para não perder a viagem, até que consegui um resultado razoável usando com servidor VGA16 (640×480 16 cores) mas aí usando algo “mais novo”, o Caldera OpenLinux 1.2 de 1998.

linux20_caldera

Testei várias combinações até conseguir algo razoável mas fiz apenas para ajudar a lembrar a cara do desktop da época, pouco integrado e ainda com visual Motif — o gerenciador de arquivos é o Looking Glass, era um produto comercial mas estava licenciado para a distribuição.

Ubuntu 5.10 (2005)

Uma pausa na metade do caminho, em 2005, para recordar a versão 5.10 do Ubuntu (sim, nada de Ubuntu Desktop, ou Ubuntu Server, só Ubuntu), apenas para comparar com a imagem anterior.

linux_20_ubuntu-1

Nota, mesmo sendo mais “novo”, ainda tive um pequeno problema na configuração da máquina virtual (controladoras SATA não eram assim tão populares na época).

Um pouco (mais) de história

Em 1995 a Slackware era a distribuição com mais tempo de estrada e também a mais madura — tanto que encartado nos CD, o guia LINUX Quickstart version 2.5, somente se preocupava com sua instalação e ignorava as demais –. Em 1996 surgiria oficialmente na Alemanha a S.u.S.E., a mais conhecida das variante da Slackware.

Ainda neste ano seriam lançadas tanto a  primeira versão stable da Debian, a versão 1.1 (Buzz — para o infinito e além!) como também a versão 2.x do Linux e com ela veio ao mundo o Tux, o carismático mascote. Exatamente, existiu uma era pré-Tux!

No decorrer da segunda metade da década de 1990 a Red Hat cresceria para se transformar na empresa (e distribuição) com a importância que tem hoje — e também criaria aquele ecossistema de distribuições baseadas nela, como é o caso da OpenLinux.

E o resto é realmente (muita) história.

E de volta a 2015

Confesso que foi uma experiência bastante divertida isto de instalar as versões antigas das distribuições e, claro, apanhar com problemas reais que poderiam ter ocorrido na época. A diferença é que a experiência contou e não foram o obstáculo intransponível que teriam sido na época.

linux20_todos

E resolvi colocar todas as máquinas virtuais para uma foto, uma pena que o Google piscou. 🙂

Anúncios

10 comentários sobre “Linux de 20 anos

  1. Muito Legal! Eu só comecei minha saga no Linux em 2000 com a Conectiva, mas mesmo tendo problema com a placa de som e modem inicialmente a estabilidade do Linux em vista ao Windows 98 SE foi o que me fez mudar de lado da Força.

    Curtir

  2. Pingback: Linux de 20 anos: instalando hoje distribuições de 1995 - Peguei do

  3. Muito bom, fudeba, artigo divertido de ser lido! Eu comecei no final de 1995 tentando c/ aquele CD do Slackware q vc disse lá em cima q perdeu, lembra? Só q o HD pifou, e ficou a piada de q o Linux causou a morte do meu HD…

    De qualquer forma, em junho de 1998 eu fui pro Conectiva RH Linux 2.0 (Marumbi), depois Conectiva 3.0 (Guarani)… No ano seguinte, fui p/ a RedHat 5.2, 6.0, 6.1, 6.2, 7.1 (pulei a 7.0), 7.2, 7.3, 8, 9… E aí Fedora 1 até o 22. Tenho q migrar p/ o 23, inclusive.

    Mas ainda tenho um servidor em casa q já teve Gentoo, CentOS e agora Arch Linux; meus notebooks já tiveram Ubuntu (várias versões), Linux Mint, LMDE e agora voltei ao Ubuntu (só ele q se entendeu c/ meu note novo), OpenWRT no roteador wireless… E por aí vai.

    Curtir

    • Tentamos foi com o RH 2 mesmo, e primeiro com o instalador gráfico dele — só para descobrir que após meia hora ele não tinha gravado nada no HD — sabe-se lá onde é que ele estava instalando os RPM. 🙂

      Curtir

  4. Comecei no slackware… não lembro qual versão, mas era uma que vinha com o kernel 1.99.tudoaquilo e o 2.0.0.
    Na época, eu tinha que usar o kernel sbpcd para usar o CD-ROM via SoundBlaster (não era IDE ainda)… :´)

    Curtir

  5. Pingback: Dois Anos! | giovannireisnunes

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s